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E se não tivesse sido assim?

Há alguns meses, duas amigas ofereceram-me como presente de aniversário, um livro com exercícios. Mas não uns exercícios quaisquer! Um livro com exercícios de escrita criativa! De um deles resultou algo parecido com um mini-conto, e como este espaço é um espaço de partilha de experiências artísticas, decidi publicá-lo aqui. Por ser um post diferente e especial, dedico-o a três pessoas: as minhas amigas Clara e Tânia, que me ofereceram o preciso livro e à minha amiga Dulce, por me ter acolhido neste espaço e pelo que me tem apoiado nesta aventura de escrever!


Em pequenas linhas o desafio consistia em escrever no cimo de uma folha A4 “E se não tivesse sido assim?”. Depois continuar a escrever, formando uma espiral, até chegar ao meio da folha, enchendo-a completamente. Dessa espiral, resultou o que se segue, sem qualquer edição posterior. Espero que gostem desta experiência.



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E se não tivesse sido assim? Como seria eu hoje? Como serias tu? Não seríamos certamente nós, os mesmos que hoje. Se naquela manhã eu não tivesse saído de casa? O meu destino já estava planeado de há semanas, o passeio já estava marcado. Tudo combinado. Mas, por momentos, deu-me preguiça, não me apetecia levantar da cama. Ouvia a chuva lá fora a bater nos vidros; a chuva não é convidativa. Pelo menos não para quem é filha do Sol, como eu. Mas lembrei-me que queria mesmo conhecer aquele museu. E já há tanto tempo que não via a Mariana, mais uma razão para sair de casa. Dirigi-me ao guarda-fatos, procurei entre os casacos, lá estava ela, descansando, desde o último inverno. Raramente a uso, mas foi para os dias de chuva inesperada que ela foi feita. Vesti-a, ainda me servia, o cinto ainda apertava no mesmo furo. Aquele furo já tão gasto pela mesma fivela. Passou um ano e nada mudou. Até o verde da minha gabardine continua o mesmo, sempre pronto para a chuva. Faltava apenas o meu chapéu de chuva, não o experimentei antes de sair, dizem que dá azar abrir o guarda-chuva em casa. Ainda chovia mais que o som na minha janela denunciava. Abri o chapéu, fazia um som característico ao abrir. Num ano nada mudou. Perguntei-me se a Mariana teria mudado? Há tanto tempo que a não via, quando combinávamos algo, ela acabava sempre por desmarcar em cima da hora. Hoje o telefone não tocou, hoje iria finalmente revê-la. Cheguei à entrada do Museu, a minha amiga não havia chegado, sempre atrasada, num ano nada mudou. Decidi ir visitar o museu, queria mesmo conhecê-lo, porque não aproveitar a viagem? Boa arte é sempre uma companhia, quantas vezes não dou por mim a falar com um quadro? Mas dessa vez, o quadro deixou-me sem palavras. Era um dia de chuva, no meio do parque, uma mulher dançava, vestindo uma gabardine verde, segurando um guarda-chuva amarelo, calçando umas galochas vermelhas. Também nesse dia eu as tinha calçado. Ouvi-te chegar, ouvi-te dizer: “Quem diria que era aqui que te reencontraria, passado um ano?”

Isa Lisboa

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8 comments:

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

Que conto maravilhoso que final surpreendente.
Parabéns Isa. E se não tivesse sido assim não teria tido a oportunidade de estar lendo esta escrita criativa.
Bjs no seu coração

Anonymous said...

muito bom

Dulce Morais said...

Isa,
Antes de mais, emociona-me que me tenhas mencionado na tua dedicatória. Este espaço é teu, Isa! Foste a primeira a manifestar interesse neste projeto que me é tão querido!

Quanto ao teu conto, além da escrita e do estilo que tanto aprecio, gostei muito da tua imaginação. Surpreendeste-me e é agradável quando isso acontece.

Muitos parabéns pelo teu talento!

Beijinhos!

Estrêlla da manhã said...

Que lindo amiga !!

Gilberto de Almeida said...

Gostoso de ler e inspirado. Obrigado por partilhar, Isa!

Isa Lisboa said...

Obrigada a todos pela leitura e pelos comentários! :)
Bjs

Sandro Panografia said...

Eu achei fantástico Isa... Parabéns ! Te juro que me veio a mente, no final, a música e a famosa cena de Gene Kelly ( Dançando na chuva ). Adorei ! abraços

Isa Lisboa said...

:) Grata, Sandro!!
Um abraço

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