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Mealheiro de sonhos (Parte III)

Arte: Little Ballerina_Joe Chicurel
O lago dos cisnes

Parte I )

E nos anos seguintes, realmente o meu pai começou a passar menos tempo em casa, como me tinha dito. Também nunca faltou ao prometido de ir ver todos os meus espectáculos.
Durante esse tempo perguntava-me que sonhos andariam os meus pais a comprar, pois não via nada de muito diferente em casa.
Até que, quando era já bem mais crescida, encontrei um papel que me deu todas as respostas. Era a factura das minhas aulas de dança.
Agora que já entendia o valor do dinheiro, percebi nesse dia que alguns sonhos também se pagam em moedas.
Também foi esse o único dia em que vi os meus pais verdadeiramente zangados, depois de eu lhes dizer que não poderia mais continuar nas aulas.
Foi um dia de muitas aprendizagens, a outra foi de que melhor que comprar sonhos para nós, é comprar sonhos para quem amamos.
Na semana passada foi o último dia do meu espectáculo. O meu primeiro espectáculo como prima ballerina, e logo um grande sucesso. O reconhecimento chegou de uma forma inesperada e avassaladora. Todas aquelas primeiras aulas da infância voltaram á minha memória a uma nova luz. Todos os anos de esforço, todos os sonhos, ali, no palco!
Como sempre, os meus pais estavam lá a assistir. Viajaram de propósito para me ver! Apesar de agora não conseguirem ver todos os meus espectáculos, fazem sempre questão de ver os mais importantes. Vieram na sua velha carrinha. Já não é a mesma de há tantos anos atrás, mas já atingiu a mesma idade que a sua antecessora. No final receberam-me com o mesmo sorriso que me recebiam quando eu era uma pequena bailarina de vestidinho azul. Sempre me sorriram como se eu fosse uma prima ballerina. Voltaram para na minha casinha de infância e hoje vou lá ter com eles.
Já tenho agendado um novo espectáculo. Temia não conseguir repetir, depois de tudo o que este espectáculo foi para mim, temia jamais conseguir dançar uma peça tão bem.
Mas já não consigo parar, por isso disse sim.
Tenho então umas pequenas férias e vou até casa dos meus pais. Vou levá-los a passear. O que eles não sabem é o destino da viagem.
Quando chego lá, peço para irmos na carrinha deles. É o transporte que me parece mais adequado.
Percorri aquela estrada que fazíamos uma vez por ano, há tanto tempo. Ainda me lembrava da primeira vez. Parecia que estava tudo igual, as cores, os sons e a dança do mar com a areia.
“Tenho uma coisa para vocês!”, - Sorri eu desta vez. E estendi-lhes o pequeno mealheiro azul e branco. “Também eu tenho guardado estes anos um mealheiro de sonhos, e este é para vocês!”
Sem saberem o que se passava, aceitaram o mealheiro e a pequena rocha que lhe entreguei para o partirem.
E por entre os pedaços de azul e branco surgiu então o sonho que eu tinha para lhes oferecer: uma pequena chave.
Ficou todos aqueles anos à venda, talvez tenha ficado à espera dos seus verdadeiros donos, de alguém que queria viver lá para acordar todos os dias com o som do mar.

(Fim)


~*~ ~*~ ~*~ ~*~ ~*~ 

Dedico este conto a todos os colegas do Tubo de Ensaio, para que sempre se lembrem do valor dos sonhos e por isso nunca deixem de lutar por eles. Em particular, dedico-o a três grandes mulheres:

A Dulce que lançou este lindo desafio e que está sempre pronta a colocar uma moedinha – ou várias – nos mealheiros de sonhos dos amigos!
A Claudiane que sei que gosta muito de contos e que para profissão escolheu ensinar crianças a seguirem os seus!
A Danka, que escreve lindos contos e que é um exemplo vivo de que devemos sempre seguir os nossos sonhos!

                                                             ~*~ ~*~ ~*~ ~*~ ~*~ 

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6 comments:

Dulce Morais said...

Querida Isa,
O mealheiro foi enchendo a minha emoção e é com o coração cheio de maravilhas que escrevo este comentário.
Os sonhos restam sonhos para sempre se não se realizarem. Tu, a Clau, a Danka e todos os autores que participam neste cantinho tornam possível a realização de alguns.
Muito obrigada por esta maravilha. O teu conto deixa no peito um sentimento de realização :)
Beijinhos!

Danka Maia said...

Isa minha amiga, que lindo conto, que emocionante,Dulce descreveu bem o sentimento que com certeza a todos nos invade diante de teu escrito.E diante de sua citação,minha inspiração muitas,alías na maioria das vezes, vem de vocês. Onde vejo Princípios, história,carinho,parceria, aprendo escrevendo vidas.
Obrigada minha amiga!
Te adoro!
Beijocas!

Isa Lisboa said...

Dulce, este é um conto que surgiu na minha imaginação com o desafio que lançaste, mas em que existem muitas coisas que também apelam às minhas emoções! Fico muito feliz por partilhá-lo aqui e que tenhas gostado de o ler!
Um beijinho grande!

Isa Lisboa said...

Obrigada eu, Danka! Também o talento que aqui encontro é uma inspiração para mim, e o seu é um deles, pela originalidade e diversidade de seus escritos! Fico feliz que tenha gostado!
Um abraço

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...


Seu conto gerado na alquimia da paixão pela dança e na gratidão me proporcionou momentos energéticos.

Obrigada pela homenagem é maravilhoso quando nutrimos sonhos alheios.
Parabéns, garota.

B. said...

Muito lindo e encantador. Sonhos, mesmo quando não realizados, são sempre recompensados, de uma forma ou outra.

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