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O Caminho e a Lição

Laura Moore

O Caminho e a Lição

Minh'alma tinha pressa de entender a renda da vida em toda sua profundidade e ângulos... Sentia necessidade de trazer à tona o que havia escapado ou fugido de mim. 
Há quatro meses escutei o canto que move todo o universo e desde então, preparei-me... Para essa grande viagem escolhi uma  minúscula bagagem,  o artigo  mais volumoso? Desejo de aprimoramento espiritual!
E assim, armada apenas de mim mesma, olhei a estrada que se estendia à minha frente. Do destino, pouco sabia ainda, mas era por ali - assim me o dizia a seta das direcções. De entre tantas que me apontava, foi difícil escolher uma apenas. Talvez seja por isso que estão lá. Para que cada viajante pare para pensar para onde quer ir. E de forma que, quando escolha, seja mesmo para aí que queira ir.
E com incerteza na bagagem e fé no coração, lá segui. Olhei ainda o meu velho carro, que, desta vez ficou para trás. Muitas foram as viagens juntos. Mas esta terá que ser diferente. Por isso, serei apenas eu e o alcatrão.
Com o vento a refrescar-me a pele, segui sem pestanejar. Não sabia quanto tempo demoraria a viagem, mas sabia que chegaria a tempo.
Por vezes, alguém me oferecia boleia. Aceitava algumas. Até à próxima cidade. Para recomeçar na madrugada seguinte. Alguns condutores, percebia após duas palavras, queriam eles próprios boleia. A eles, agradecia, mas declinava a oferta. Esta era uma viagem só minha, e para mim.
Na última madrugada, acordei mais cedo que o habitual e comecei logo a caminhada. Em pouco tempo, cheguei. Sem saber, dormira já na fronteira do meu destino.
Despertei com um vento suave. Uma brisa tocou os meus ouvidos como um sussurro a dizer: “Está na hora de acordar desta ilusão em que te encontras!” Não tive medo, pois outrora ouvi aquela voz suave que trazia paz, e sedenta por resposta perguntei:

- Eu não vivo uma ilusão?!  - confesso que já não me conhecia, sabia que algo estava errado mas tinha medo de descobrir o problema.

- Levanta, e segue o teu caminho, não te preocupes pois estarei contigo e responderei às suas duvidas.

Foi então que percebi que antes de chegar ao destino desejado, teria que viajar pelos meus pensamentos relembrando o que já tinha sido esquecido... Lembrei-me da minha força. Não da força física, mas da força de vontade que tinha aprendido;  viver sem medo e sempre seguir a razão com o sentimento nas mãos. Lembrei-me que não importa o quanto o meu redor está torto. Não devo entortar-me para entender, ou falar como alguns falavam e agiam, porque o segredo não é apenas guardar e esconder os pensamentos, sentimentos e conhecimentos, mas compartilhar com sabedoria, tendo sempre a certeza que devo ser leal com o meu Eu interior para que o meu exterior resplandeça.

Passei pelos momentos que me fizeram chorar e esconder o meu querer e com isso tinha-me perdido. Tentava levantar-me e, por ser pequena e inexperiente, tropeçava, pois havia esquecido dos meus conhecimentos, que me foram ensinados com tanto carinho, para nunca desistir apenas por ter passado por algo ruim...

Foi então que prossegui e descobri que o destino era o mesmo. Entretanto eu já não era a mesma pois tinha renascido das cinzas  e estava tingida pela cor do fogo que pensava ter-me consumido. Resplandecente como um pássaro e forte como uma leão.

Tinha esquecido como se conta o tempo. Já não recordava como se contam as distâncias. Nada do que eu sabia ao inicio da minha viagem era evidente. O regresso fez-se sem que eu o planeasse. Se ignorava quanto tempo tinha durado esta expedição aos confins de mim, sabia que não tinha encontrado o que procurava. Porque - agora compreendia - o que eu desejava não existia. 


Dos tesouros recolhidos durante a minha viagem, a nenhum me apego mas todos conservo. São flores que enfeitam minh’alma. São cores que pintam a vida. São céus azuis e nuvens de algodão que me levam em viagem sem deslocação. 

Fui aos confins de mim e regressei, como aquele Veneziano dos tempos antigos que tanto perdeu durante o seu percurso, mas tanto recebeu em troca.

E hoje, aqui sentada neste topo de mim, observo o que tentei ser e acolho o que que sou. Dizem ser coragem que de se saber real e incontornável. Não sei o que seja a coragem… Só sei o que sou e aprendi que o essencial é Viver. Com uma maiúscula e sem contorno.


Claudiane Ferreira - Isa Lisboa - Kizy Lee - Dulce Morais

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6 comments:

Dulce Morais said...

@Clau: Quando o início de uma história é assim dito, de forma tão poética e aérea, a viagem que se inicia só pode ser bela!
@Isa: O percurso que nos ofereceste é tão belo! Se nem sempre foi uma viagem fácil, acompanhados pelas tuas palavras foi mais fácil chegar ao destino.
@Kizy: Que linda forma de nos relatar a visita a esse país maravilhoso a que chegou. Há nessa voz uma carícia aconchegante que nos permite ver além do olhar.

A todas vós, agradeço esta nova experiência de escrita que viajou através dos continentes e das mentes e que me proporcionou tanto prazer na leitura de cada uma das vossas partes como na escrita deste final.

Beijinhos a cada uma!

mochiaro said...

O caminho sempre terá existência qualquer que seja o tempo e os vetores que indicarem essa direção.
A alma esse momento alucinante, definido em teoria, mas não testado em si mesmo, mas aceito como origem do pensamento ou da mente.
Dirá então como um vazio preenchido e jamais completado.
Uma forma de buscar algo que foge teimosamente contrário ao nosso desejo; um cheio vagando em torno do ser.
Uma estrada, um caminho, uma orientação que se perde no infinito a morrer na distância e no tempo percorrido.
Setas; vários vetores preso a mesma origem na espera de um somatório que a leve a uma resultante final.
Viajando tal como nua de seus pertences, mas coberta de desejos e ainda mais a fé.
Mistura de conhecimentos angariados, mas não tomados como exemplo; uma incerteza marcante, que lhe tomava num todo, sem um fio de esperança; sem uma referência diria até um mapa mental.
Quem tem o seu espaço geralmente não gosta de ceder e no seu vazio sente melhor em presença.
O vento essa criação que não se vê e somente sente com os movimentos de objetos em transição; no toque sensual, tal como diz o texto “Esta na hora de acordar...”.
“O medo é uma forma criativa de enfrentar a verdade e nessa hora a mentalização é a energia vital que tem que ser ouvida”.
Os seres são uma criação divina e quem assim nos permitiu existir ofertará soluções.
Levanta e anda... Disse o Grande Metre.
Caminhar e ser apenas um Caminhante que perdeu o medo de se perder.
O reinício da viagem como afirmas foi pela força da vontade e, nessa hora diz o ditado: “Ao entendermos que somos frágeis é que nos tornamos fortes”.
O texto enumera o que foi esse retorno; a aprendizagem dentro da experiência de vida; uma análise sem detalhes; uma explosão interior forte; um remexer das cinzas e algo importante e não destrutível foi encontrado.
Se o Destino marcasse o futuro nossa existência seria correta e ideal, pois, eliminaríamos todos os obstáculos.
A vida é um complexo de incógnitas que temos que resolve-las à medida que montamos as equações.
O tempo em que dentro de si marcava a expedição e... “quanto tempo tinha durado esta expedição aos confins de mim, sabia que não tinha encontrado o que procurava. Porque – agora compreendia – o que eu desejava não existia”. ... assim expressou
Faz-me lembrar uma arte de Imperfeição, uma arte japonesa WABI SABI, ao definir a beleza que mora nas coisas imperfeitas e incompletas.
É um jeito de “ver” as coisas através de uma ótica de simplicidade, maturalidade e aceitação da realidade.
Na natureza:
todas as coisas são imperfeitas
Todas as coisas são incompletas
a beleza pode estar escondida na feiura
a grandeza existe nos detalhes despercebidos
apreciação da ordem cósmica.
“Só sei o que sou...” foi o resultado da equação de seu texto diante de tantas incógnitas aparentemente insolúveis.
Parabéns, belo texto.
Um abraço
mochiaro/rio de janeiro
“Idéia de idealizar não apenas um lugar, mas uma vida, um futuro, ou qualquer outro tipo de coisa, numa visão fantasiosa e normalmente contrária ao mundo real é UTOPISMO, dizia Thomas More (1516).”

Dulce Morais said...

Caro Mochiaro,
Quero dizer em primeiro o quanto a sua reflexão me inspirou. Podemos escolher inúmeros caminhos, é verdade. Porém, apenas um nos pertence e é esse que nos leva a nós mesmos!
Pode ser, como dizia More, utopismo, mas deixa-o de o ser quando se torna a nossa realidade... assim o concebo.
Obrigada por esta maravilhosa e tão profunda análise!
Abraço!

Gilberto de Almeida said...

Obrigado, Dulce, Isa, Kizy e Claudiane. Belo ler a busca espiritual. Mais belo ainda, como disse a Dulce, "quando se torna a nossa realidade". E quem escreve, escreve, de alguma maneira, sobre si.

Isa Lisboa said...

Clau, Dulce e Kizy: Muito obrigada por esta experiência, e por esta viagem que me ajudaram a fazer!
Mochiaro e Gilberto: Obrigada pela leitura e comentário! Fico muito feliz que tenham gostado!
Abraço a todos

Claudiane Ferreira de Souza da Silva said...

Mochiaro e Gilberto obrigada pela leitura e pelas palavras proferidas.

Dulce. Isa e kizy é muito bom quando constatamos na prática, que em equipe podemos ir sempre mais...

Beijos no coração de cada um.

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