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Ventos Cruzados

Arte: Linda Cornelius

Ventos Cruzados

Há poucas coisas no mundo que podem aquecer o nosso coração. O sol da manhã, quando a geada da madrugada seca lentamente nas folhas da vegetação, o sopro de uma brisa de verão que vem trazer-nos um pouco do calor do deserto, um poema de amor declamado em voz alta, subir uma montanha que nos parecia inalcançável e compreender que, afinal, podemos muito mais do que pensávamos, e surpresas de amigos que não hesitam em tomar uma parte do que nos preocupa para aliviar o peso dos nossos ombros.

Há os livros também. Aqueles que, antes de nos transportarem para mundos desconhecidos através das suas linhas, atravessam eles próprios oceanos de águas claras para vir pousar-se nas nossas mãos com delicadeza.

E, porque todos esses presentes da vida existem, todos merecemos ser felizes. Encontrar esse equilíbrio frágil, muitas vezes, só depende de nós.

Dulce Morais

“A partir desse aprofundamento da respiração, costuma vir uma sensação de tranquilidade, de quietude e de ausência de preocupação e de ansiedade”

Eliana Leal in “Você Tem Obrigação de Ser Feliz”

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Quando sou matéria,
nada posso;
e a força que possuo,
não vejo.

Quando sou matéria,
tudo quero,
nada tenho,
apenas medos.

Mas quando sou espírito,
tudo se revela,

Depois volto a ser matéria,
e nada quero,
tudo tenho,

Tenho força
e não há medos!

Gilberto de Almeida
(29/11/2014)


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Mensageiros de felicidade


   A coruja especial olhou para a minha cara boba:
  Meu coração fez cócegas...
  O sorriso escorregou num tobogã, 
  parou em  folhas de caderno

 Fui arrebatada!
 Prossegui
 Precisava ir a caverna 
 mania 
 abri 

   ―Poupa-me os pormenores replicou Diágoras, ̶ O que não compreendo é como tudo isso  se relaciona com...(1)


  Mocho verde de patas castanhas 
 Junto às fotografias da família
 As palavras vindas além-mar,
 no lado esquerdo do peito
 ninguém  as roubará

  Claudiane Ferreira


 Guimarães Rosa tinha razão quando dizia:

                               ‘‘Felicidade se acha é em horinhas de descuido


1) fragmento do 4º parágrafo, de uma página qualquer in " A Caverna das Ideias" - José Carlos Somoza

                                 
                               Obrigada por vocês fazerem parte da minha vida.


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Para Fernando Pessoa







Há pessoas
que voam
Há pessoas
que fazem voar

É pessoa que vem
É pessoa que vai
E assim se voa,
De pessoa em pessoa
Voa-se voa.


LitoNazareth








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Qual é O Sentido da Vida?

Fotografia Katia Nunes
Que sentido faz a vida?
Essa coisa louca de contemplar...
Só de ver a beleza toda...
As vezes sem tocar,

E muitas sem poder amar.
Osny Alves

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Bumerangue


                                   
                                                           
            Art July Macuada


                Com o tempo você internaliza o quanto é essencial espalhar ...                           

  Energia emitida, energia recebida.

                               Claudiane Ferreira                            









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INQUISIÇÃO


INQUISIÇÃO

Fazia mais de sete meses que não chovia,
e então foi a maior chuvarada,
destas que há muito não se via,
como consequência a cidade, mais uma vez
e como sempre ficou toda alagada.

Pudera, a cidade esta toda impermeabilizada,
e apesar da grande estiagem,
a prefeitura não fez com que ela fosse higienizada.

Então o rádio noticiou :-
todos os bueiros estavam lotados de “ santinhos “
da ultima eleição, aquela que como sempre,
elegeu e reelegeu os políticos de sempre.
Esses dementes, que nunca pensam na gente,
mas pra “ eles “ essa noticia foi um acinte,
imagina informar isso para o contribuinte.

De pronto, “ eles “ fizeram uma comissão,
e foram para Roma falar com o papa,
em uma grande delegação.

Lá reunidos, com o papa,
reclamaram do S. Pedro,
por ter enviado aquela chuvarada,
na região errada.

Sendo assim, eles querem o S. Pedro
queime na fogueira,
pois a chuvarada não caiu na Cantareira,
la onde o supra sumo da gestão governamental,
é fazer obra emergencial,
pra administrar terra e poeira.

Sobrou pra S. Pedro, esses políticos
com seus “ colarinhos brancos “,
não admitem ninguém atingindo seus flancos,
não querem nenhum comentarista analítico,
fazendo comentário critico.

E a delegação foi pra Paris,
esperar a decisão papal,
se S. Pedro vai pra fogueira,
por não ter a chovido na Cantareira.

Marco Aurelio Tisi
( 26/11/2014 )

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... Presente + ideia + amigas = haicais




Uma imagem + citação = presente 

 um presente + uma ideia + amigas =  haicais 

                                                               

Singela carícia

Efêmera razão

Só intuição

Claudiane Ferreira



Não é o vento

Que faz passar o tempo

Sou eu. És tu. Nós

Dulce Morais


Passagem breve

Rosto desconhecido

uma marca fica

Isa Lisboa






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BAÚ ILUSTRADO


BAÚ ILUSTRADO

Tenho um Baú Ilustrado,
nele tenho Amigos que me são tão Caros,
são Poetas, Escritores, Pensadores, Compositores,
e outros que tais, mas Eles tem muito preparo,
eles estão em forma de caricaturas,
pois Deles tenho uma ótima Literatura.

Esses Amigos Prediletos,
não são Graduados servis,
e muito Deles são
Auto didatas meritórios,
que só incrementam
meu Território.

É um Baú sem fundo,
nele cada vez mais,
cabe todo mundo,
deste mundo tão fecundo.

Tais Amigos são Imortais,
não são datados,
e o que deles extraio,
só me tem tocado.

E com tais Amigos,
percebi que neste nosso
pobre mundo, com muita tecnologia,
houve certa melhoria,
mas em matéria de coexistência,
há muita desinteligência.

Gosto de partilhar,
o que deste tais Amigos,
cada vez mais, me faz pensar,
e incrementar um saudável Filosofar.

Agora muito é virtual,
e muito dos Amigos que tenho,
são de ótimo astral,
e com Eles compartilho,
o pensar dos habitantes
do meu Baú Ilustrado,
que muito me deixa encantado,
para enfim não nos deixar prostrado.

Marco Aurelio Tisi
(24/11/2014 )

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Ventos...

Desenharts tumblr



não por conta
desse teu par de olhos
perscrutador sobre meus azuis

menos ainda
porque fostes
num tempo remoto
meu descontrole

mas pra suportar a melancolia
dessa ideia quimérica

desvinculada
de qualquer realidade

colho tuas flores.

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BORBOLETA TRISTE

BORBOLETA TRISTE
(Por Maristela Ormond)



Esperei tanto tempo dentro de um casulo.
Fui crescendo, desenvolvendo, virando, apertando...
Minhas asas que estavam por se formar doíam a cada movimento.
Tive que encontrar um esconderijo, para que não fosse predada por uma maldade qualquer.
Foram fases doloridas da metamorfose até que um dia ela aconteceu e pensei: Vou sair e conhecer o mundo. Um mundo tão colorido quanto minhas asas.
Quando consegui voar pelo mundo, pousei de flor em flor, retirando o néctar da vida.
Encontrei muitos predadores, precisei de uma boa camuflagem para sobreviver a eles. Mas o maior predador que encontrei, disse-me um amigo, se chama homem.
Foi dele que tive que fugir e voar para muito, muito distante...
Observei lá do alto que esse homem, era muito cruel, não só comigo como para outros seres e principalmente para com os de sua própria espécie.
Pensei muitas vezes, porque ele seria assim?
Será que o sofrimento de sua metamorfose foi muito mais dolorida que a minha?
Pousei então em mais alguns lugares e observei o mundo que pensava colorido, mas não me agradou o que vi e torne-me uma borboleta triste, por tudo que vi e aprendi.
Minha vida é muito curta e por isso tive que partir sem compreender...
Tomara que esse homem tenha uma vida mais longa e possa mudar algumas coisas.
Tomara que ele possa retirar o néctar da flor e saborear o vento doce em seu rosto e que perceba que por mais longa que seja sua vida, precisa viver sem ser predado pelo outro, para voar cada vez mais distante para um lugar chamado Felicidade.



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Recordação

Imagem: http://pixabay.com/

Doce lembrança
Cores, aromas, sons
Breve embalo

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TEU JEITO


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Viajante

                                           Imagem: José Zuzza Suassuna de Oliveira


Às vezes somos sol; muitas vezes sal
Somos instrumentos musicais...
Às vezes afinados; muitas vezes desafinados
Somos parte do Universo...
Às vezes transbordamos milésimos de porção divina; muitas vezes ficamos aprisionados na matéria.

Talvez,
Sol seja irradiar feixes de gratidão a todos
Instrumento afinado seja propagar o mais puro amor
Transbordar milésimos de porção divina seja perdoar

E amanhã, quando tiveres que deixar a casca do casulo ...
E amanhã, quando tiveres que deixar a casca do casulo ?

“Viva as perguntas agora. Talvez assim, gradualmente, você sem perceber, viverá a resposta num dia distante” 1

Claudiane Ferreira


(1)  Rainer Maria Rilke

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Sofredor de amar


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VENTO ENCANTADO

VENTO ENCANTADO

A coisa esta apocalíptica,
a falta d'água é critica,
na torneira não há mais substancia,
dela só sai vento encanado,
então é mágico
e transforma o vento em encantado,
e na torneira o que goteja é Poesia.

Goteja Poesia,
pra não ficar na agonia,
sede agora é de harmonia,
e o banho é de fantasia.

Mazela de falta d'água,
falta arvore na natureza,
desmataram a sutileza,
acabou a Nascente,
não há mais rio fulgente,
o clima não esta clemente.

Mas ficou fácil justificar,
o não gerenciar,
a culpa esta dogmatizada,
o santo ficou com a moral amaldiçoada,
por não mandar a chuva precipitada,
e a água que se procura esta contaminada.

Torneira com nova função
de expelir Vento encantado,
nesse viver esfalfado,
pra amenizar resignado,
daquilo que se estava habituado.

Sede de harmonia,
banho de fantasia,
no vento encantado,
pra dar sobrevida
a Poesia.

Marco Aurelio Tisi
( 16/11/2014 )

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LEÃO



Com pensamentos em volta

Com o coração na mão

E o passado retorna

Amar feito um leão.




                                                                 S2



                                                             







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A solidão que o tempo vai deixando...

Aprisionada dentro do meu peito
a minha saudade  tem um mar de recordações
desde que nos separamos o tempo nunca mais parou...


Mas não importa o tempo que nos separa
há um  (a)mar que nos une
que importa o despertar
se na tua saudade
eu sinto o sabor salgado
da água dos teus olhos!


Contigo sonho e sofro
vives em mim
corres-me nas veias...


Manuel Marques (Arroz)

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Reviver - XX


Gilberto de Almeida
15/11/2014



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Reviver - XIX


Gilberto de Almeida
14/11/14



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Dropar ...


                         
                                                                 Imagem Saquarema -
                                                    Fonte: http://www.superframes.com.br/

     Procuro,
   não enxergo a luminosidade.
   O que colar no papel?
   Se “o todo” do meu Eu , resolveu brincar de polícia e ladrão

   Procuro,
   em meio ao oásis,
   água para saciar, o destempero,
   erguer mais uma vez a lona poética

   Procuro
   O cantar da cigarra

   Ouço o dó, o ré, o mi,
   o fá (lar) é fácil,
   quando o sol não se encontra entre nuvens.
   A inspiração lá na zona de arrebentação

   o si fugiu da (ci)garra

                            garra

   Surfei
 
   Dropar 1 a tal onda


   me fez te querer bem.
   
  Claudiane Ferreira





     " Se não estranhas mais as ilusões da sorte
                                  teu tinteiro conterá a vida e a morte."

                                                                                        Hsu Yun


 (1) Dropar, termo utilizado no surf, indicando a descida de uma onda, da crista até a base.


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NÃO ACELERAR TANTO

NÃO ACELERAR TANTO
(Por Maristela Ormond)
 
www.sologif.net
               Meu pensamento está tão acelerado que às vezes acabo acreditando que estou ficando louca...
            Essa pressa, ou fome de fazer tudo muito rápido, está mexendo com as emoções, com a aprendizagem das pessoas. Estamos num ritimo tecnológico à velocidade da luz e nosso cérebro está assimilando tudo isso de forma voraz.
            O simples fato de pegar numa caneta para escrever e “comer” metade das palavras por engano, ops! Por engano ou o pensamento foi mais veloz que o corpo? A coordenação dos movimentos não está seguindo concomitantemente ao movimento cerebral.
            A quantos megas bites está meu cérebro? E o seu?
            Dia virá que comandaremos máquinas com os pensamentos sem haver razão para nos movermos para isso. Mas será que tudo isso que está acontecendo com os seres humanos é saudável? Parece-me que estamos numa crise de ansiedade sem retorno, pois a rapidez que nos envolve não nos deixa retroceder. Seria como voltar ao período da idade da pedra e jamais nos submeteríamos a tal coisa, pois temos pressa, muita pressa.
            Às vezes fico observando a correria das pessoas e me pergunto para onde iriam com tanta pressa, tanta ansiedade. Atrás do quê?
            Estamos ameaçando nossa saúde, ameaçando nossa convivência com os amigos, ameaçando perder nossos familiares em nome da ansiedade, em nome de correr atrás de algo que nem mesmo nos damos conta.
            Seria o momento oportuno de parar e observar em pouco mais que viver está sendo uma necessidade primordial, pois vamos acabar atropelados pela imposição a que esta sociedade consumista está nos levando e se isso não acontecer, tropeçaremos em nossos próprios pés sem sabermos por que caímos e aí sim, paramos, por força do destino, por força da imprudência.
            Tirar o pé do acelerador é a meta. Objetivo maior vida mais saudável. Será possível?







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OS DIAS E AS NOITES SÃO RETRATOS DE TUA FACE

Por todos os dilúculos declamo, sabem os ventos
Que urgem... As noites insones que a poesia me
Toma... são deleites indizíveis que clamam em voz
Flama, desejando o coruscante tocar...

Mais curtos se tornaram os dias, tornou-se diferente
O tempo, não mais em horas conto minha história...
As memórias todas, conto a partir do dia em que eu
Conheci um amor tão intenso e tão meu...

Tonaram-se todas as auroras de um rosicler mais belo,
Refletem os céus teus olhos... Na possibilidade quando
Penso que não é razão é amor... acalenta todas as figuras...

Por isso não me deixes na amargura de sonhar de forma
Tão turva... Se é tão grande o que sinto eu, se é eterno tenhas

A certeza, que espero ser um dia ser o ar dos pulmões teus... 

Josué Brito  

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Paredes

Imagem da Web
Autor desconhecido

Paredes
Juntam-se as pedras
uma a uma se reúnem
num monte indistinto.
Fabrica-se a argamassa,
com cuidado se misturam
os elementos conhecidos.
Horizontalmente se organiza a construção,
em gestos experientes ou descobertos,
uma pedra untada da cola preparada,
uma outra sobreposta
ao mesmo tratamento submetida.
Juntam-se as mágoas,
traições e desilusões
amontoadas com o tempo.
Fabrica-se o desgosto
misturado com a amargura
das palavras por dizer.
Verticalmente se ergue o edifício
em gestos repetidos,
numa tentativa desesperada
de proteger-se
das consequências das ações
que outros tomaram por si próprios.
Se a parede pode proteger
das chuvas e dos ventos,
esqueceu o pedreiro
que são necessárias janelas
para pode ver o Sol.
Se o muro pode evitar
novas dores de chegar,
esqueceu o humano
que as esperança é indispensável
para continuar a viver.
Dulce Morais

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Alguém para ouvir




       Alfredo continuou falando.
    - Eu, lá em casa, fui ensinado que em primeiro lugar, antes de qualquer coisa, vinha Deus. O homem era nada comparado a Deus e só pela bondade dele é que eu vivia. Cresci com a certeza de que somente o bem triunfaria e que a mentira não prevaleceria sobre a verdade, apesar de às vezes demorar; que os maus seriam castigados por suas maldades...
      Enquanto ele falava, Samuel não pode evitar pensar em seu próprio coração despedaçado e sangrando, depois que vira seu mundo ideal desfazer-se. Um mundo povoado pelo bem, pela bondade e tudo o mais que fora ensinado a querer e dar valor. Agora tinha diante de si um mundo que desmoronara e que, embora trágico, prenunciava o surgimento de outro, pois, somente das ruínas pode surgir o novo. O parto que estava se dando, tanto poderia dar à luz a um monstro ou a um ser maduro, mas nunca a um ser angelical.
      - Sabe, professor, quando eu saí de casa para estudar, eu vim achando que tudo seria maravilhoso e que eu poderia ajudar as pessoas em suas vidas tristes. Foi assim que deixei minha casa, meus pais e irmãos que também precisavam de mim. Procurei doentes no mundo enquanto deixava outros na minha casa. Mas, em breve vim a descobrir que também tinhas as minhas próprias necessidades; eu sempre ouvia as pessoas, mas não tinha ninguém para ouvir-me.
      Mais uma vez, Samuel se lembrou do tempo em que sua casa estava cheia de pessoas, de amigos que o procuravam em busca de ajuda e, por encontrá-la ali, voltavam no dia seguinte e no outro e no outro, de modo que sua casa estava sempre movimentada e barulhenta e a cada dia parecia-se menos com um lar. Tornara-se um ponto de encontro e tão logo essas pessoas eram saciadas em suas necessidades, iam embora deixando cinzeiros sujos e um cheiro azedo de vinho. E era nesta atmosfera que ele, sua mulher e filhos iam dormir quando a noite chegava. E foi assim que seu lar foi se transformando em casa e esta em um ponto de encontro e depois nada. E ele não percebia isso naquela época. Procurava convencer-se que era melhor poder ajudar as pessoas. E agora, depois que tudo desmoronou, ficara estampado em seu rosto o retrato daquele que sabe consolar, dar apoio e incentivar. Quando seu casamento se desfez, quando o ponto de encontro acabou, os amigos seguiram seus próprios caminhos e nunca mais o procuraram. Aquelas pessoas que eram tão confusas que tanto precisavam dele, já não precisavam mais. A razão disso ele nunca compreendeu.
Novamente sua atenção voltou-se para o que aquele rapaz dizia.
      - Sim, é isso mesmo! Não te usam mais, não precisam mais de você...
     Enquanto falava, seu semblante se contorcia, num esforço para chorar, para parir. Seus olhos foram enchendo-se de lágrimas e, como um tumor que arrebenta e deixa sair aquele pus que exercia pressão, suas lágrimas finalmente jorraram. Com o corpo deformado pela dor excruciante de um espírito atormentado – a maior de todas as dores -, com a cabeça entre as mãos, ia surgindo o inesperado nascimento.
    Samuel já atendera a muitos pacientes, antes de abandonar o consultório e tornar-se professor. Já estava acostumado com semelhante comportamento; era previsível. Porém, aquele caso era diferente, pelo menos assim ele sentia. O que aquele jovem aluno falava, deixando seu coração sangrar, era a realidade com a qual ele se deparava pela primeira vez. Acordara. Samuel estudara para tratar de pessoas que se encontravam fora do mundo real, mas, o que fazer quando o paciente não é paciente? Quando o mundo descortinado, em certo momento da vida, não é mais uma fantasia, uma ilusão? O que poderia ele fazer? Como tratar alguém que não precisa de tratamento? Poderia dizer-lhe que a vida era assim mesmo, onde há mágoas, decepções e que ele deveria saber controlar-se para poder safar-se? E como tantos outros, ele fora criado para ser bom num mundo mau? Que o mundo era feito para ovelhas e lobos? Desnecessário falar o que aquele rapaz, de forma dorida, estava experimentando agora. Samuel sabia que eram respostas que não precisavam de perguntas.
      Samuel ofereceu-lhe um lenço para enxugar as lágrimas, já que não podia enxugar aquela dor. Depois de usar o lenço, continuou a falar.
      - Aos poucos, foi acontecendo algo que, no início, eu não sabia explicar. Com o passar do tempo vi meus amigos tornarem-se maduros e autossuficientes. Fui percebendo em seus rostos, enquanto falavam comigo, certo despeito ou raiva. Não sei qual nome dar ao que eu sentia. Por que aquelas pessoas, as quais eu sempre quis bem e ajudara, me tratavam assim? Acabei perdendo a espontaneidade ao lado delas e passei a sentir-me mal e deslocado. Assim, durante muito tempo mantive-me afastado delas, sentindo a dor da ingratidão. E em pouco tempo eu não era mais nada. A dor não me abandonava. Ela era a minha companheira desde quando acordava até a hora de dormir e, não satisfeita, atormentava meu sono. Ficou sendo a substituta das coisas que eu havia perdido. Foi minha companheira durante tanto tempo, que pude tirar dela todo o seu sumo, tudo aquilo que ela podia ensinar. E agora aqui, conversando com o senhor, tudo se tornou claro. Agora vejo que quando se dá, esperando algo, não estamos dando, estamos fazendo uma troca, uma barganha. Mas chega disso. Darei por dar, sem esperar nada em troca.
      Fez-se silêncio. Tudo havia sido dito.
     - Sabe professor – continuou a falar -, é bom quando se tem alguém com quem se pode conversar e desabafar e achar que não está devendo nada por isso... É mais ou menos isso, eu não sei direito. Só sei que agora me sinto bem.
      - Fique à vontade, sempre que precisar – disse Samuel.
    - Bem, agora tenho que ir andando – falou rapaz. Tem alguém me esperando lá fora e que está precisando de mim.
O rapaz levantou e dirigiu-se até a porta. Depois de abri-la, quis dizer alguma coisa, mas limitou-se a sorrir. Samuel também sorriu.

     Já era tarde. No quarto, Samuel continuava sentado na poltrona, lembrando-se do acontecido naquele dia. No quarto o silêncio emanava das poucas peças de mobília. Uma imobilidade silenciosa, eterna e imutável, parecendo querer dizer que tudo que é já foi e tudo que será já é. Levantou-se e caminhou até a janela. A folhagem da árvore em frente já se transformara no lar e abrigo dos passarinhos que encontravam refúgio durante a grande sombra da noite. A pensão toda dormia. Só o vento caminhava pelas ruas. Samuel olhou para o céu estrelado e pensou que já estava chegando o Natal. Pensou em Maria e foi sentar-se à escrivaninha. Depois de acender o abajur, pegou papel e caneta e começou a escrever uma carta.

       Outono, terça-feira, madrugada.
       Querida Maria.
    Você sempre gostou do Natal. Não vou desejar-lhe o melhor Natal do mundo, porque não creio que vá senti-lo assim. Seria hipocrisia.
      Tantas coisas aconteceram... – E continuou escrevendo.


EP.Gheramer

Samuel  - # Fragmento 02



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Ninguém me roubará o sonho...

No meu sonho tu  flutuas  a cada passo
sinto-te a cada instante
e é na noite que toco a tua pele ...


E no ondular do sono a memória procura-te
quero encerrar-te nos meus sonhos para te ter
trazer-te dentro de mim como um destino
e os meus sonhos sufocados terão a noite para te amar...


Manuel Marques (Arroz)

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Seu Ângelo cantou

Do lado direito havia flores. De quem entrava. Do lado direito de quem entrava naquele supermercado, havia flores. Não de todos, mas de vários, de vários tipos. Quem quisesse veria o cheiro. Delírios. Também de rosas e de perfume anônimo. Havia elegantes "bouquets" decorados, que, de coloridos, pareciam crisântemos de todas as flores. Pareciam begônias, Margaridinhas dos campos, também Margaridas e Cláudias e Verônicas.


Por entre os expositores, fregueses com seus carrinhos de compras zanzavam interessadíssimos em nada mais. Nada menos. Cada um se apropriava de uma lata de refrigerante, de um pacote de arroz, uma garrafa de qualquer coisa. E de todos que existiam, existia um só. Que era ele. O próprio, Aquele que fazia as compras. As outras pessoas... Ah! As outras pessoas estavam interessadíssimas em nada mais. Nada menos.

No açougue, seu Juvenal! Faca afiada nas mãos. Sim, ele mesmo. Porque todo açougue tem que ter um Juvenal. Se não tiver, deve ser um açougue vegetariano. Nem presunto. Nem carne branca. Ainda bem! Mas lá tinha. Que pena. Aliás não tinha penas, porque já estava sem elas... E desossada.

As moças da peixaria vendiam um permanente sorriso, sardônico. Mas das duas, sardinhas mesmo, só tinha uma. A outra, que se chamava Catarina, exibia uma pequena marca de nascença ao lado da sobrancelha. Mas isso não conta! Ela era da padaria e desinformava monotonamente alguns pãezinhos franceses, italianos e portugueses. Não sabia que todos eram nacionais!

Nas caixas registradoras, umas quatro. Da tarde. Também, filas. As funcionária vendiam um permanente sorriso, real. Também cartão de débito, também cartão de crédito! É fato quase indiscutível que cada um tem o sorriso necessário de cada dia! Além do verdadeiro, é claro, que esconde debaixo da tendinite (quando chora!). Mas um dia será diferente. Hoje é assim!

Na fila número três - na verdade não havia número - Dona Úrsula estava apressada. No relógio o tempo todo. Olhava como se pudesse adiantar o tempo. E batia o pezinho e suspirava. Dividia o interesse com o senhor de trás, que não tinha o menor estresse. Ou vice-versa.


*#---@?

Foi aí que Seu Ângelo cantou.


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Seu Ângelo já saía com suas compras, no corredor frontal do supermercado, quando inesperadamente, para surpresa de todos, estufou o peito e cantou, com sua amadurecida voz de tenor, num italiano incompreensível, mas belo, o trecho mais famoso de uma ópera que eu desconheço.

E aquele som que premiava a tarde como os primeiros raios da aurora premiam o amanhecer, foi encontrando seu caminho por entre as flores da direita, por entre as gôndolas repletas de mercadorias, foi tocando como brisa os ouvidos dos fregueses desinteressados, que silenciaram num encanto embevecido. 

Foi nessa toada suave, inesperada, tranquila, mas cativante, que a música de Seu Ângelo, preenchendo completamente o ambiente, avisou seu Juvenal de que a carne era fraca, e o açougueiro abandou a rudeza de seu dia a dia para transformar-se num protagonista atento daquele fato.

Assim mesmo, com essa tranquilidade toda, essa voz empostada do cantor de improviso percorreu os corredores até chegar, afinadíssima, à funcionária sorridente da peixaria... E aquelas sardas que ela tinha no rosto se iluminaram como poesia enquanto a melodia docemente penetrante daquele canto inesperado fazia arregalar as sobrancelhas de Catarina, do outro lado da loja, cuja marca de nascença, agora, dançava alegremente!

Foi desse mesmo modo, nota a nota, timbre a timbre, som a som, que a voz vibrante de Seu Ângelo banhou a alma de todas aquelas pessoas silenciosamente embevecidas, fez com que Dona Úrsula esquecesse o relógio e que o senhor de trás esquecesse Dona Úrsula. E as quatro filas, diante das caixas registradoras, e as quatro funcionárias que as operavam, agora compunham uma plateia anonimamente enfeitiçada, na casa de espetáculos que emergira da vida cotidiana, e, por um momento, esqueciam-se de si mesmas e integravam a corte de atores e atrizes daquela ópera desconhecida, desembarcando da tragédia das próprias vidas para alçar voo na vibrante ousadia alheia.

E Seu Ângelo cantou. 

E a ressonância fez vibrar as flores, que inundaram o ambiente com a doce harmonia de uma orquestra perfumada.

E Seu Ângelo cantou.

E a ressonância transformou em lágrimas as pequenas sardas que sorriam no rosto iluminado da funcionária da peixaria.

E Seu Ângelo cantou.

E a ressonância transformou o facão agudo de seu Juvenal na batuta firme do maestro que conduzia à distância a orquestração das flores.

E Seu Ângelo cantou.

E a ressonância transformou em coro arrebatado as vozes mudas da plateia que se formara em todo o ambiente.

E Seu Ângelo cantou.

Cantou, cantou e cantou.

Quando Seu Ângelo foi embora, com um sorriso largo de felicidade incontida a estampar-lhe o rosto, por algum tempo as pessoas ficaram imóveis. Não havia o que fazer, nem o que dizer. Aquele momento exclusivo em suas vidas deixara-as temporariamente sem ação. E permanentemente tocadas por um fato que jamais esqueceriam:

- o fato insubstituível em suas vidas, de que Seu Ângelo havia cantado!

Gilberto de Almeida
07/11/2014


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