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ERA UMA VEZ...

ERA UMA VEZ...
(Por Maristela Ormond)

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   Era uma vez um país onde as pessoas não valorizavam as pessoas que gostavam de ensinar e  estudar.
        Essas pessoas gastavam anos e anos aprendendo, gastando tudo que tinham para realizar o sonho de um dia poder falar com muitas outras pessoas sobre tudo aquilo que aprenderam. Sentiam-se felizes por poder conversar com a população do país, ensinando sempre mais e mais e com isso, gastavam muito dinheiro para fazer cursos de aperfeiçoamento para aprenderem mais, saber mais, ensinar mais.
          A alma dessas pessoas ficava muito feliz, afinal tudo o que queriam era conversar infinitamente e dar um pouco mais de sabedoria a um povo que era tão inteligente, mas não tinha conhecimento do potencial que possuíam e por isso nunca se revelavam, estavam sempre taciturnos e chateados...
     Acontece que no meio desse povo existiam também pessoas que não se preocupavam em saber nada e não tinham vontade de aprender, então maltratavam demasiadamente o instrutor dos saberes e este se sentia muito magoado chegando a pensar em desistir, em abrir mão da alegria de ensinar.
        Nesse país, mais e mais pessoas eram deprimidas por não conseguir estudar e acabavam desistindo porque desta forma nada entrava em suas cabeças. Era tudo uma bagunça, um barulho que não permitia a quem queria o direito de pensar e aprender.
       Um dia o mestre deste país ficou muito, muito triste mesmo e começou a adoecer. Seu coração estava quase parando de tristeza quando descobriu que não conseguia ser tão feliz em sua profissão, pois ninguém se interessava pelo seu trabalho. Descobriu também que a pessoa que governava o país não dava importância para que o povo aprendesse, ao contrário, tinha até medo de que se as pessoas soubessem, causassem problemas, pois se tornariam pessoas críticas e começariam a exigir alguns direitos que este governante não pensava em hipótese alguma em doar.
    Algumas leis foram outorgadas (e muito bem pensadas) para que tudo desse errado e para desestimular o mestre. Chegou a tal ponto que esta pobre criatura já não tinha mais nem como se manter, para continuar seu trabalho. Ora vejam só...
        A população deste país foi ficando cada vez mais alienada e como não sabiam e não compreendiam o que os dirigentes faziam e quais eram suas estratégias, mais eram subservientes aos comandos que lhes eram impostos.
       Era uma população carente, com fome, com a pele amarelada por carência de vitaminas, remédios, saberes que pudessem acordá-los para a realidade que viviam, pois a Saúde também não funcionava. Mas eles não sabiam pobrezinhos... E não sabiam por que algumas dessas pessoas não deixavam que pudessem estudar e compreender o que acontecia bem diante deles.  Com isso, iam ficando cada vez mais doentes e ficavam mais doentes ainda os mestres, aqueles que gostavam do que faziam e sentiam que era preciso salvar a população carente mesmo diante de tantos desafios a serem vencidos: aqueles que queriam atrapalhar e aqueles que governavam o país que não queriam que compreendessem o que lhes acontecia.
    Nesse país, aos poucos, as pessoas foram esmorecendo, foram morrendo à mingua. Tristes, sem motivação, sem alimentação suficiente. Não havia alimento para a vida prosseguir e não havia muito menos alimento para a alma.
      Era uma vez um país, onde as pessoas não valorizavam aqueles que gostavam de ensinar e aqueles que gostavam de estudar...

(Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência).

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POSSESSÃO







O que posso concluir depois de tudo o que passei é que antes eu era um, depois fui dois e agora voltei a ser um, mas de uma natureza diferente daquela que eu fora.

Quando estava dividido, a impressão que tinha era a de que minha alma estava sendo disputada por espíritos de naturezas diferentes. O desenrolar desta disputa, numa alternância de vencedores que parecia não ter fim, ora sob o jugo de um, ora sob o jugo de outro, tomando minha alma e habitando este meu corpo, fazia com que eu experimentasse tanto a confusão da semiescuridão quanto a desorientação completa da escuridão total das trevas. Porém, muitas e incontáveis as vezes em que me senti confuso e também desesperado; como o pêndulo de um relógio que não para de oscilar, minha alma ora pertencia a um, ora pertencia a outro; com isso, minha mente ficava dividida entre um extremo, em que era capaz de, neste corpo, levar a cabo as mais inexprimíveis maldades e outro, onde ficava a culpar-me das maldades que cometia no primeiro, embora não tivesse consciência do que eu tanto me acusava; havia apenas um sentimento de culpa abstrato que me atormentava a existência. Hoje, sinto que sou peregrino neste corpo e nesta terra; eu escrevo o que vejo através destes olhos. Nada, além disto. Eu apenas olho, vejo e escrevo.

A experiência que narrarei aconteceu muito antes que eu pudesse formar, digamos, uma pálida opinião a respeito e em seguida expressá-la nas palavras do último parágrafo que o leitor acabou de ler. Porém, a impressão mais forte, a sensação indizível e que jamais se apagará de minha memória, esta, não conseguirei escrevê-la; a que experimentei quando, depois que tudo acabou, eu abri os olhos e pude, então, chorar.

Nesta história eu serei o autor, o narrador e o protagonista; os demais personagens e os acontecimentos poderão ser reais ou fictícios. Excetuando a minha pessoa, tudo o mais poderá levar a divagações devido à ambiguidade, ou não, e à maneira como será percebido pelo leitor inconsciente, aquele que lê ao mesmo tempo em que o leitor consciente, mas que, diferentemente deste, penetra na supra realidade. Comecemos.

No dia onze de junho de 200..., exatamente às onze horas, entrei na livraria, no centro da cidade. Meu objetivo era específico e a intenção há muito determinada: comprar o livro de Waldemar Ribeiro, intitulado “Cura em Cafarnaum” e outro chamado “Concordância bíblica”. Depois de folheá-los, mais por hábito do que por curiosidade, entreguei-os à vendedora que preencheu a nota de venda; depois, dirigi-me à caixa para efetuar o pagamento e foi aí que aconteceu uma coisa que veio tirar da rotina todo o resto daquele dia e de muitos outros depois dele: a moça da caixa, depois de ler o preço a ser pago, falou para outra a seu lado, encarregada da seção de embrulhos, que aquele era o número da besta. Despertado por aquelas palavras e mais ainda pelo tom com o qual elas foram pronunciadas, perguntei-lhe o que estava acontecendo e ela, trêmula, respondeu-me que o valor a ser pago correspondia ao número da Besta, que estava na Bíblia. Achei curiosa a coincidência e, se não fosse a agitação que percebi nas duas, aquilo teria sido esquecido ali mesmo. Paguei e ao estender o braço para pegar o embrulho notei que a balconista segurava-o com as pontas dos dedos, parecendo querer evitar que minha mão tocasse na sua. Foi num misto de encabulado e confuso que apanhei os livros e saí da livraria, pretendendo nunca mais voltar ali, mas não sem antes verificar que havia guardado e bem guardado, a nota de venda; queria olhá-la com calma enquanto estivesse na barca que fazia a travessia da baia, levando-me de volta para casa. E assim fiz.

Acomodei-me numa das cadeiras do andar de cima da barca, junto à janela e, depois de colocar a pasta e o embrulho sobre a cadeira vazia ao meu lado, retirei a nota de venda do bolso e passei a examiná-la: o papel era branco e as letras impressas na cor preta; escritos a caneta estavam a data, os nomes dos livros, os valores e, ao pé da nota, no canto direito, o total a pagar com o desconto: 148,666 reais. Nada mais; uma nota como outra qualquer, não fosse o acontecido na loja por causa do número. Dobrei papel e recoloquei-o no bolso. Cruzei os braços, olhando através da janela distraidamente e pensei na bobagem que era aquilo tudo. Porém, curiosamente, embora eu tenha ficado a pensar também em outras coisas durante o tempo da travessia da baia, aquela bobagem não saia da minha cabeça, como acontece com outras coisas que pensamos e que daqui a dois minutos são substituídas por outros pensamentos. Era como se algo de concreto, e não de abstrato como um pensamento, houvesse entrado em minha mente e agora ocupasse um lugar discreto e obscuro, bem lá no fundo, com os olhos a mirar o meu interior, como que a fazer o reconhecimento do lugar onde, daquele momento em diante, passaria a habitar e, horror dos horrores, a agir.

Desde este maldito dia, eu não consigo executar meu trabalho. Todas as vezes que tentei escrever algo, o fazia durante o dia inteiro para, logo chegada à noite, reler e atirar dentro de uma gaveta destinada a “Escritos não concluídos – ideias”; muitos manuscritos sem encadeamento ou uma ideia central foram ali colocados; apenas escritos doloridos e confusos de uma alma que vivia em permanente inferno, pois, como se verá adiante, o que eu queria escrever, isso não o fazia, mas o que não queria era o que eu escrevia. Junto aos editores já não tinha mais crédito e há muito meus livros foram relegados ao esquecimento. Não só não conseguia dirigir o que escrevia como, também, nada mais me distraia ou me dava alegria. Quando em frente ao espelho, desespero é o que eu via em meus olhos; não eram mais meus olhos, não era mais o meu olhar. Era algo que passou a habitar o meu interior e que aos poucos foi deformando o meu corpo, provocando-me rugas, muitas rugas em meu rosto e rachaduras em meus lábios e por entre os meus dedos – e como doíam!  E eu queria chorar e não conseguia; sentia o choro subir e ser barrado na garganta, preso... A cada choro não chorado, sentia meu corpo e principalmente minha cabeça inchar de ar, de desespero e de agonia.

Até os amigos mais chegados se afastaram de mim; era grande a minha solidão e o meu desespero, pois nem mesmo a minha própria voz era a mesma e as palavras que pronunciava careciam de sentido. Quando me olhava no espelho, o que me parecia era que a minha verdadeira imagem refletida estava embaçada, deixando a nitidez para uma visão horrenda que eu não conseguia encarar por um mínimo de tempo que fosse. Eu sabia que havia alguém ou alguma coisa lá, algo que eu conhecia, mas que me negava a encarar; não queria ver a máscara que agora cobria meu rosto real, se é que um dia o fora – até disso eu duvidei. Era triste, não queria ver-me; desviava o olhar do espelho e encontrava comigo em pensamento. Sabia que deveria olhar de frente a verdade da qual sempre fugira, mas tinha medo.

Um dia, já não sei mais quando, obriguei-me a ficar em frente ao espelho; foi logo depois de, mais uma vez, eu tentar chorar e não conseguir. A força para isso foi encontrada no meu desespero. Então, olhei bem para a imagem nítida, enquanto mantinha meu pescoço e minha cabeça vacilantes eretos, e vi que não era eu; era outra pessoa que andava – eu pressenti – perdida num passado do qual eu me esquivava de lembrar. Aos poucos, obrigando meu corpo àquela posição, sentindo uma dor infernal, consegui perceber que havia mais alguém – agora com certeza – dentro de mim que, inexplicavelmente, estava a me olhar; era uma presença que eu não conseguia determinar ou localizar, mas sentia estar ali comigo. Era algo feio, nascido do húmus da maldade que espreitava e sorria... Ria... Gargalhava! Agora eu era dois!

Ledo engano o meu; ao continuar olhando, consegui perceber uma legião dentro de mim. Então, eu me indagava, onde a unidade dentro de mim, onde o indivíduo... Onde o ser único que sempre ouvi dizer que cada pessoa é? Sentia que estava desintegrando-me a cada momento que passava. E estes pensamentos estranhos feriam minha mente, fazendo-a sangrar; já há muito não conseguia mais me controlar, manter a unidade mais simples de um único pensamento que fosse meu de verdade. Ah! Que verruma era aquela que penetrava em mim querendo arrancar meus rins e meu coração, minhas últimas gotas de sanidade e minha já tão minguada alegria de outrora?

Já não suportava mais tanto sofrimento físico e mental. Minha carne estourava em furúnculos que depois de abriam, deixando sair o prurido amarelo e nauseante; não se fechava e não cessava de sangrar e arder e eu tentava chorar, mas as lágrimas não saíam. Tinha o meu corpo coberto de chagas, chagas superficiais resultantes de uma luta que estava se travando dentro de mim e da qual eu só conseguia sentir a dor, mas nunca participar; meu corpo era apenas a arena de um confronto muito grande, não em tamanho, mas em profundidade e de que meu pensamento lógico não conseguia formar uma apagada ideia.

Assim, encontrei-me neste estado, não sei se no corpo ou fora dele, não sei se dormindo ou acordado, pois já não conseguia separar o real do irreal, assim. Neste estado, certa vez tive uma visão: estava diante do espelho e ouvi, saindo de dentro de mim, pelos olhos (única janela ainda aberta para o exterior em que não havia chagas, apenas dois buracos enevoados), uma voz que ora parecia ser a minha, para logo em seguida, misturar-se com outras. Foi quando ouvi um som que me pareceu de trombeta e que saia do meu interior como a voz de muitas águas caindo:


  1. “Sei bem o que queres, já descobri teu novo ardil. Prostrado está esse corpo sobre o leito por causa de nossa luta. Deixaste-o com uma pergunta sem resposta e o pensamento confundiu-se e o corpo caiu extenuado. E então tomaste as rédeas e colocou outro pensamento em sua mente, um pensamento de que não adianta lutar nesta vida, de que não há felicidade, de que não há solução e o que existe é nada e confusão e desespero e um debater-se em vão – falaste certo, pois falaste do que é próprio de ti, pois és o pai da mentira. Mas, como sempre, cometeste um erro: esqueceste que todo ser humano é habitado por um espírito, que pode ser de luz ou de trevas e este esta ocupado pelo de luz, embora, por causa de nosso confronto, pareça ser de semiescuridão; e enquanto te preocupavas em trazer a confusão a este ser, eu me fortalecia na fonte de água viva desde o nosso último encontro e agora eis-me aqui novamente. Se nosso confronto impede que este homem coordene o pensamento, farei com que ele narre nosso encontro, segundo seus símbolos. E tu, espírito de Asmodeu, não selarás as palavras desta boca e nem prenderás a mão que as escreverá. O corpo está fraco, mas narrará, mesmo sem o saber, para que todos saibam e fiquem conhecendo o que é o tormento de uma mente dividida. Tal escrito parecerá estranho, extremamente estranho, beirando mesmo as raias do absurdo e da loucura, pois esta, a loucura, é a mente dividida. É necessário saber que se trata de uma luta travada no interior do ser, uma luta entre a Luz e as Trevas, entre a Alegria e a Tristeza, entre o Bem e o Mal... entre Deus e o Diabo e, por isso, nem sempre inteligível – pelo menos por enquanto. É a luta da Vida contra a Morte. É o retrato em preto e branco do que acontece dentro de cada ser humano, sempre que tiver que escolher entre dois valores... Deus e o Diabo lutam por almas, destruindo corpos. Durante a transcrição deste combate, a disputa pela posse desta alma não cessará e por isso a escrita oscilará entre a extrema lucidez e também – infelizmente – a extrema escuridão e incompreensão. Não sei em que estado ficará este corpo material depois de finda a batalha, mas haverá orgulho por parte do autor que escreve, e também um sentimento de vitória por ter o privilégio de estar parcialmente consciente, nesta vida terrena e passageira, daquilo que é vedado conhecer à maioria dos mortais: a luta entre o Bem e o Mal. Esta mente dirá com orgulho: 'que se realize em mim a tão atroz e antiga disputa; sinto satisfação – ele dirá nesta sua narrativa e nas posteriores – e agradeço ao Senhor da luz o privilégio de poder presenciar como as coisas acontecem, verdadeiramente, dentro de cada ser humano'.”


25 de agosto
Agora sei que estou são, pois tenho medo de ficar louco. Quando minha mente é atacada por espíritos malignos, o espírito de luz que em mim habita vem em meu socorro. É uma coisa horrenda ser o campo de luta onde se trava a batalha pela posse de minha alma. O doutor Inglaterra disse que uma pessoa louca não consegue escrever seus próprios pensamentos; se é verdade, então eu não estou louco. Isso me faz lembrar que o meu editor não me tem mandado o pagamento pelos meus escritos que tenho lhe enviado.

26 agosto
Percebo que a poesia não passa pelo intelecto, ela sai direto dos rins e do coração para o papel. Hoje recebi um e-mail contendo um poema; fiquei com medo de abrir porque minha boca começou a sangrar e apareceu um furúnculo logo abaixo de meu olho esquerdo; dói, mas eu não sei se quero chorar. Abri o e-mail e constatei que eu estava certo: era uma mensagem do Diabo. Respondi imediatamente com aquilo que me ocorreu no momento. Acho que minha missão começou hoje. Os meus inimigos serão os da minha própria casa.

27 de agosto
Mandei hoje a resposta para o Diabo; não coloquei endereço porque ele já sabe o que está escrito. Tenho uma cópia do e-mail e vou transcrevê-la neste meu diário. Ei-la:
'Neste mundo... Acreditar que a moeda só tem uma face é estar vulnerável à outra! Se no tempo presente uma prevalece sobre a outra, é para mostrar que em toda afirmação está contida sua negação! Neste mundo... Se andarmos na escuridão, é porque desconhecemos a luz; quem é da noite, anda nas trevas, quem é do dia, anda na luz. Existem os que querem mais do que a luz comum! Existem os que buscam a luz plena e já a vislumbraram; estes trazem no peito o escudo em espelho e contra tais as trevas não prevalecerão! Chegará o dia, e agora já é, em que deixaremos de ver somente as aparências e em espelho! Neste dia, e agora já é, conheceremos plenamente, como plenamente já somos conhecidos! E este dia chegou, e este dia já é... E nos veremos face à face e o som da primeira trombeta já soou! Está declarada a batalha da Luz contra as Trevas e contra aquela, estas não prevalecerão! Os despojos pertencem ao Vencedor! E para a alma que das trevas será libertada, tudo se fará luz! A morte foi vencida! O clarim da batalha já soou. '

28 de agosto
Leio bons livros e a cada dia que passa, à medida que vou escrevendo, caracterizando os personagens, vou, ao mesmo tempo, percebendo com mais fineza os caracteres das pessoas que conheço. Não posso dizer que as acho mais bonitas interiormente; o que tenho achado é mais tristeza e poucas alegrias, sendo estas passageiras, fruto de pensamentos fugazes que hoje valem e amanhã já não prestam mais.
Definição de Homem: um sonho que uma personagem de uma narrativa está sonhando.

29 de agosto
Hoje lavei o meu quarto para ver se consigo melhorar o “clima” dentro de minha cabeça. Eu poderia explicar agora qual a relação que uma coisa tem com a outra, mas estou sentindo muitas dores por causados furúnculos que apareceram atrás a orelha e debaixo do queixo; também não escrevo, porque, quando abaixo a cabeça para escrever, o papel fica todo pingado de sangue; qualquer dia, em qualquer hora, coloco novamente a situação diante de uma personagem e aí ela que se preocupe com as explicações, justificativas ou seja lá com o que ela quiser. E pronto.

30 de agosto
Tenho andado com minha atenção desperta desde que recebi aquele e-mail desafiando-me para lutar pela posse de minha alma. O desafio foi aceito.
Tento não me irritar e nem deixar que este espírito do mal me distraia de meu ofício. Devo procurar conhecer bem as maneiras de que se utiliza para melhor poder escrevê-las em meus livros que não devem falar do particular, mas do universal. Mas é difícil para meu intelecto apreender o que está acontecendo na esfera espiritual.

31 agosto
Uma coisa estranha aconteceu hoje de manhã: sai para comprar um livro sobre os mitos da antiga Ásia e que há tempo encontrava-se esquecido e empoeirado na prateleira de um antigo Sebo e ele havia desaparecido; indaguei do dono e ele não se lembrava de ter aquele livro na livraria. O que me dirá esse livro? Devo ser cauteloso em meus julgamentos. 'Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos. '

32 agosto
Terminei o meu noviciado no dia em que fiz oitenta e dois anos; foi o tempo que levei ouvindo, vendo e aprendendo. Agora, sinto que estou sendo submetido a provas para saber se sou digno de tornar-me um Iniciado. Por outro lado, sei que isto não depende de mim; sou apenas terreno de peleja. A primeira prova já veio; outras mais virão e eu não sei se passei na primeira. Desde ontem sinto que meu espírito descansa; há calmaria dentro de mim, mas não sei se o inimigo se prepara para outro ataque. Digo “inimigo” porque as provas para a iniciação constituem-se de enfrentamentos com as forças do mundo inferior: ou se é derrotado e aí – ai de mim! - ou se é vitorioso e inicia-se uma nova fase. Estou em estado de alerta. Porém, sei que de nada adianta eu me preocupar, porque na hora da peleja, será o espírito divino que em mim habita quem irá lutar. Eu, por mim mesmo, nada posso fazer, só me resta esperar.

33 de agosto
Sinto que o inimigo está à espreita, como fera acuada. Talvez o ataque venho hoje ou amanhã. Se vier hoje, estou atento, porém volto a dizer para mim mesmo que quem está escrevendo estas palavras não é o espírito divino que em mim habita; quem está alerta – atitude vã – é minha mente, minha razão, meu intelecto – arma inútil e, às vezes, até aliada ao mal. Quem tem ouvidos ouça o que o espírito diz ao seu templo humano.

34 de agosto
Urinei na cama durante a noite passada. Acho que o espírito divino, durante a luta, abandonou o meu corpo, deixando-me à mercê do espírito infernal, que fez com ele o que quis, para mostrar o seu poder e a sua força. Não sei o que aconteceu durante o sono. De qualquer maneira, hoje, a minha consciência não me acusa de nada, isto é, o demônio não me flagela. Estou bem.

35 de agosto
A luta, que parecia haver cessado, continuou no silêncio, impedindo-me de fazer qualquer coisa. Queria chorar, mas “ele” não deixa; tenho medo e sinto dor. O pai da mentira usa pessoas inocentes, entrando em seus corpos e fazendo com que elas, sem o saberem, trabalhem para ele. Seu objetivo é ganhar a alma. Agora me ataca diferente, não é mais cara a cara; agora, tira minhas forças criativas, enfraquecendo meu corpo e minha mente, tomando conta de minha alma. Quem virá em meu socorro? Ó Espírito Divino, senhor dos céus e da terra, Deus todo poderoso! Vinde em auxílio de minha alma; livrai-me dos espíritos infernais dando-me o poder de exorcizá-los! Fortalecei minha alma levando-a para mais perto de vossas asas protetoras e então terei forças para continuar a lutar. Vinde em meu socorro, não me deixeis naufragar novamente! Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?!”.


Estas anotações, em forma de diário, foram encontradas dentro da gaveta de “escritos não concluídos...”; tenho a certeza de que não as escrevi antes daquele dia onze de junho, mas a caligrafia é minha. Além do que acabei de contar, só uma coisa mais resta a narrar e que me devolveu a alegria de viver: o que senti um pouco antes de abrir os olhos. Neste momento, senti meu corpo todo ser sacudido e depois ser suspenso no meio da escuridão das trevas do que me pareceu ser o Abismo e nem o meu próprio corpo, eu conseguia enxergar. A única certeza que eu tinha era a de que havia um pensamento e esse pensamento era eu; sentia que era fortemente puxado para cima e para baixo; senti o que acho ser meu próprio corpo ser partido ao meio; no mesmo instante, uma voz vinda de dentro de mim gritou, não para mim, mas para outro alguém que estava fora de mim: “que temos nós contigo? Vieste destruir-nos? Bem sabemos quem sois”. E logo em seguida ouvi uma grande voz, como a voz de muitas águas, que imperativamente falou: “cala-te e sai dele!”. Foi então que senti meu corpo sendo convulsionado pelo que falara primeiro e que, gritando com grande voz, foi arrancado de dentro de mim e jogado de volta ao Abismo. Neste exato momento, abri os olhos e senti uma grande paz e vi que estava deitado em minha própria cama e tinha as vestes rasgadas e sujas de sangue, mas por baixo delas, o meu corpo estava são.

Levei as mãos ao rosto e, então chorei.



EP. Gheramer

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Dói-me o teu corpo que não afago...

Tremem-me as minhas mãos quando apertam o teu lugar vazio
chamo-te porque a minha voz nasce e tenho que amar-te
senão morro de amor
o silêncio na noite enlouquece-me...

É tão fundo o silêncio entre nós
o que será feito daqueles restos de saudades
dói-me o teu corpo que não afago...

Manuel Marques (Arroz)

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Horário de Deus


Os sabiás do entorno da minha casa
nem sabem o que é horário de verão:
- continuam cantando às cinco e quinze da manhã,
seja isso que horas forem!

Gilberto de Almeida
17/10/2016

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Parêntese


A vida na Terra é um parêntese
recheado de ponto-e-vírgulas
em meio à reticência infinita
digna de exclamação...

A vida perene é uma página
que, livre de simbolismos.
aceita nossas histórias.

Gilberto de Almeida
15/10/2016





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Alma nascitura - II


Do alto, no infinito, alguém procura
tornar à efervescência desta pira...
É o espírito, exitante, que pedira
a chance de uma nova investidura.

Esforça-se, trabalha e se depura
até que, na matéria, então, se atira...
Não mais rancor, nem medo, nem mais ira;
no ventre, a paz da alma nascitura!

Em breve vem ao mundo uma criança,
guerreira dessa guerra interior
de imenso desafio, ao qual se lança!

E cabe ao mundo adulto, então, propor
a chama acolhedora da esperança
manter, na voz do exemplo e à luz do amor!

Gilberto de Almeida
12/10/2016

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E o HOMEM criou deus





A Bíblia relata que Jesus veio instaurar uma nova etapa na evolução da humanidade - a etapa Espiritual! Parafraseando as lendárias palavras de Buda: “A noite do erro deixou de ensombrar a alma do homem: levanta-se no horizonte o sol da sabedoria; estão aferrolhadas finalmente as portas que levam à existência angustiosa e miserável; patenteia-se a estrada do céu.".
Oh! Como é enganosa a ideia que fazemos de nós mesmos, como seres humanos que somos. E, se isso é verdadeiro, como poderemos transcender a condição por demais superficial e artificial que é a condição humana? E como essa condição, enquanto aceita passiva e resignadamente, impede o homem de ter experiências em esferas mais altas, infinitas e eternas do viver pleno para o qual foi destinado originalmente?
Chegamos a um ponto de altíssimo desenvolvimento tecnológico. A Ciência penetra em todos os campos do conhecimento humano - quer na exploração das profundezas dos mares, quer na exploração do espaço sideral. No entanto, ainda é pouco, ainda é muito pouco. Encontramo-nos neste ponto. Não há mais aventuras a serem empreendidas pelo homem. E a população aumenta e o mundo vai ficando pequeno demais e podemos até pensar que chegará o dia em que seremos tantos, que a cada um caberá um metro quadrado, se tanto. Aí então, se entredevorar-se-ão mutuamente. Aliás, já podemos perceber os prenúncios de tal estágio no presente. Porém, há um mundo quase que totalmente desconhecido ainda, que é o nosso próprio mundo interior. Houve um ponto na história em que o homem errou o caminho e enveredou - para não dizer escolheu - pelo caminho que nos levou até este ponto em que estamos. Dirão alguns que a Psicologia, já há muito tempo, nos descobriu este mundo. Mas, não é deste mundo que desejo falar, pois ele é demasiadamente humano. Então de qual "mundo" estou falando? E se existe como chegar lá? Há algo lá? É possível?... O que nos é desconhecido instiga nossa curiosidade e nos enche de perguntas. Que bom que é assim.
Apesar de todo o progresso da Ciência, do Saber, da Técnica que o homem possui, é pouco... Quase nada se tem conseguido para chegar a este Mundo do qual estou falando. O instrumental que o conhecimento humano nos proporciona não é suficiente para alcançá-lo. É preciso, antes, transcender este cárcere conhecidos sentidos humanos para começar a entrar em contato com a plenitude a que temos direito. Chega de viver uma vida monótona, cheia de tédio e de insatisfação, enfim, uma vida que não é Vida! O tato, o olfato, o paladar, a audição, a visão e o sentido somestésico são apenas alguns dos sentidos que conhecemos e desenvolvemos e, por isso, só conhecemos o que nos permitem tais sentidos. Aí então, vamos vivendo a nossa vida como se aquilo que percebemos fosse a verdadeira Realidade.
Porém, e isso é fundamental, possuímos muitos sentidos além dos que usamos; são dezenas, centenas, milhares... Somos um corpo inteiramente sensitivo, voltado para a recepção de todas as forças e energias do universo e, no entanto, ficamos restritos à meia dúzia de maneiras para apreender a Realidade e, então, com estas mínimas, vulgares, quase desprezíveis percepções forjamos, para nossa própria segurança psicológica, uma realidade falsa e por isso, mentirosa e enganadora e, portanto, irreal! Mas alegremo-nos! Já é possível dar o salto para uma Evolução Criadora, aliás, este salto já foi dado e está a nossa disposição há mais de 2000 anos. Como assim? Quem deu esse tal salto? - Alguns podem estar se perguntando e alguns outros já sabem a resposta.
Há dois mil anos atrás, mais ou menos, Jesus deu este salto e deixou o caminho aberto para quem quiser. O caminho para uma evolução criadora, para uma vida plena e abundante. Ele nos abriu as portas do Reino de Deus, embora tal Reino já estivesse dentro de nós, mas era preciso que Ele viesse para nos abrir a porta. Trata-se do Salto Espiritual.
Uma enorme interrogação surge em nossas mentes: "Se a porta foi aberta há dois mil anos por que não foi vista?”. E eu respondo - ela foi vista, por poucos, é verdade, mas foi vista.
Não foi vista por todos porque a interpretação dos judeus - Jesus era judeu - a respeito do Reino de Deus era somente terrena, por demais de acordo com a natureza humana, sem nenhuma centelha divina aparente ainda não se evidenciara, mas com a chegada do Messias, começou a manifestar-se no interior do homem e já podia começar a acender-se. Deus não pensa pequeno, como nós.  Então é preciso deixar este Reino que está dentro de nós, manifestar-se como tal: ESPIRITUAL! É o Espírito que fala de agora em diante, deixando a estreiteza do pensamento humano e penetrando na largueza do pensamento divino. Embora ainda num corpo material, não deve ser mais a matéria (os sentidos) que continua a falar apenas. Que se dê a palavra ao Espírito, ao imaterial que, na verdade, sempre esteve em nós, animando o corpo humano material - é o sopro da Vida, dado pelo Criador desde o início dos tempos, mas que somente com o advento de Jesus - e através dele - passa a manifestar-se, pois, antes d'Ele, vivíamos sob o domínio da Lei, dada por Deus e escrita em papel perecível - éramos apenas carnais. E somente com a Lei era impossível dar o salto para o Espiritual – o salto no absurdo da fé.
Com o caminho já aberto por Jesus, um novo pacto foi feito, com a boa notícia trazida por Ele. Isso se tornou possível - o Reino de Deus chegara para habitar dentro de nós. Diante de tal Reino, de tal maravilha, somente nos resta apontar nossos passos para trilhar este Novo Caminho que, por ser novo, pode muitas vezes ser mais difícil caminhar - e até mesmo encontrá-lo -, porque o ser humano prefere o velho caminho no qual já está acostumado, apesar de irreal; estamos, ouso dizer, como que viciados no velho e largar um vício não é fácil, principalmente por tratar-se do que se trata, ou seja, deixar a maneira material de pensar a vida, solidificada por milênios de tradição, para abraçar o Novo Caminho - o do Evangelho - o qual só pode ser trilhado andando pelo Espírito. Mas isso não é difícil para aquele que se dispuser a colocar-se nas mãos sempre estendidas do Espírito Santo de Deus. E elas estão sempre estendidas aos homens, pois, fomos criados segundo os propósitos de Deus, para sermos a sua mais preciosa obra, à sua perfeita semelhança.
Qual é a ideia que fazemos de Deus? Ela tem sua origem em nossa parte humana ou divina? Material ou imaterial? Será que fazemos Deus à nossa imagem, como faziam os gregos com os seus deuses? Se o fazemos, então devemos apagar o que está escrito em Gênesis, capítulo 1, versículo 27 e, em seu lugar, escrevermos "E o Homem criou deus à sua imagem...". Outra pergunta se impõe: Em que tipo de Deus quer que acreditemos? É aquele criado pelos homens religiosos e que pretendem encerrá-lo num templo físico, erroneamente chamado de igreja?
Não é tarefa fácil responder a estas perguntas. Porém, não nos esqueçamos de que tal como os discípulos que no princípio acompanhavam Jesus e viam tudo o que Ele fazia, custaram a perceber que Ele era o Messias, quão mais difícil é para nós, hoje, perceber isso. Assim, não desanimemos porque, há seu tempo, Ele se revelará àqueles que o procuram. Apenas tenhamos paciência - o Tempo de Deus não é igual ao tempo do homem.
Deus se mostra aos poucos - ele usa conta-gotas!

EP. Gheramer
www.gheramer.com.br

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Invento-te...

Já não me lembro da última noite que consegui adormecer
sem pensar em ti
tento seguir o teu olhar mas perco-me
e ao perder-te invento-te  para dizer amor...

Manuel Marques Arroz.)

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PRESUNÇÃO





Lucas 21. 29-36

O Quebra-cabeça há muito estava montado. Mas, uma única peça ficara fora do tabuleiro e para ela não se achava lugar. Somente o seu inventor poderia saber por que assim o era. Mas, quem conhecia a mente dele? Quem primeiro deu a ideia a ele para que possa lhe dizer?
E quanto àquela peça sozinha, sem lugar para ela no grande tabuleiro da vida? Ela sentiu até medo de pensar. Mas é natural que sentisse. Tinha medo de expressar o que pensava daquilo tudo. Mas, se estiver certo seu pensamento? Não, não pode ser... É loucura pensar o que pensava – dizia para si mesma.  Mas o que pensava? Será possível ao ser mortal conhecer ou sequer imaginar o que é ser imortal?  Ter a vida eterna?

O Cristo conhecido é o próprio Anticristo! Como escapar do desespero causado por este pensamento? Somente será livre se receber, por revelação do próprio Deus, que esse é o Cristo pregado pelas religiões criadas pelos homens, só assim poderá se ver livre da agonia de uma existência deslocada. Satanás é tão astuto que deixou nas religiões a mentira de que o Anticristo um dia chegaria ao mundo quando, na verdade, ele sempre esteve no mundo, desde um tempo que não se consegue imaginar. Neste caso a palavra bíblia deve ser escrita com letra minúscula porque, na verdade, não é a palavra de Deus, é a palavra do Diabo!

Neste caso, que o Verdadeiro Deus ajude ou destrua o justo, pois, ele pensa contrariamente ao que toda a espécie humana pensa e acredita desde sempre. Mas a situação pela qual a Humanidade está passando e sempre passou, só pode ser fruto diabólico! Não é parecido com o belo e prometido narrado na Bíblia.

De cabo a rabo a Bíblia descreve a desgraçada vida do homem sobre a face da terra. Segundo ela, tudo teve seu início no Éden, quando o ser humano preferiu acreditar nas palavras do ser maligno que lhe dizia que não morreria se comesse da árvore do Conhecimento, antes, pelo contrário, teria o mesmo Conhecimento do Bem e do Mal, seria como o próprio Deus.

Desde então, desprovido de sua imortalidade, o homem foi lançado fora do tabuleiro edênico e desde então vive como peça deslocada porque fora do belo quebra-cabeça. Não encontra lugar para si e é obrigada a enfrentar e aceitar sua mortalidade. Seu nome é Presunção e toda sua existência seria pautada pelo falso conhecer do que é o Bem e o Mal. Assim, e até os dias de hoje, todo seu julgamento parte de uma premissa falsa que é a de possuir o verdadeiro Conhecimento. Por toda a Bíblia encontramos o homem desgarrado de Deus e praticando o mal, achando que pratica o bem. O conhecimento que possui é falso porque veio do pai da mentira.

E tudo vem se repetindo, desde então. Também foi assim nos dias de Noé e depois dele, quando aqueles que saíram da arca continuaram a praticar o mal pensando que faziam o bem, pois, ainda carregava em sua natureza o mesmo falso conhecimento. E a morte continuou a reinar!

Estamos na Primavera e logo aparecerão as flores em toda a sua exuberância. Afinal, é a estação das flores e o anúncio da chegada do verão.

Na leitura do texto de hoje, Lucas fala na forma de parábola, sobre a vinda do reino de Deus. Ele nos adverte para que tenhamos cautela; para que os corações dos discípulos não fiquem “sobrecarregados com as consequências da orgia, da embriaguez e das preocupações deste mundo”, para que a sua vinda não venha “sobre nós repentinamente, como um laço, pois há de sobrevir a todos os que vivem sobre a face da terra.”.

Mais uma vez a história se repete. Mais uma chance é dada ao homem. Não posso deixar de imaginar o profundo sofrimento contido no lamento de Jesus-homem e Deus quando, do alto de um monte e tendo à sua frente Jerusalém, ele diz:


“Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que a ti foram são enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes! Eis que a vossa casa vos ficará deserta. Declaro-vos, pois, que, desde agora, já não me vereis, até que venhas a dizer: Bendito o que vem nome do Senhor!”


Como das outras vezes, nos é oferecido uma escapatória: devemos vigiar e orar para estar em pé quando ele vier.

 Voltando um pouco, ainda em Lucas, encontramos a chamada “Oração Sacerdotal”, onde Jesus pede ao Pai, referindo-se aos seus discípulos: “Não peço que os tires do mundo, e sim que os guarde do mal.”; e mais: “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio de sua palavra.”.

Como vimos no texto do dia 13 passado, esse dia virá como um “relâmpago, fuzilando” e brilhando de “uma a outra extremidade do céu.”.

Mas o homem, ainda carregando a sua presunção, não tem paciência para esperar e diz consigo mesmo: “meu senhor tarda em vir” e continua praticando a maldade. E, como nós que vivemos hoje, os discípulos queriam saber quando ele voltaria. E a resposta é a mesma: “Cuide que não sejais enganados”. Mas, pela sua misericórdia, ele nos diz que “Levantar-se-á nação contra nação, e reino contra reino; haverá grandes terremotos, epidemias e fome em vários lugares, coisas espantosas e também grandes sinais do céu.”. E mais: Antes, porém, “lançarão mão de vós e vos perseguirão... E sereis entregues até por vossos filhos, irmãos, parentes e amigos..., Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas; sobre a terra, angústia entre as nações com perplexidade por causa do bramido do mar e das ondas; (...) Os poderes dos céus serão abalados. Então se verá o Filho do Homem vindo numa nuvem, com poder e grande glória. Ora, ao começar a suceder, exultai e erguei a vossa cabeça; porque a vossa redenção se aproxima.”.

Ora, de todos os sinais acima, qual - ou quais - ainda não se vê? Sim, porque quase todos eles já acontecem nos dias de hoje; não há quem ligue a televisão ou olhe à sua volta e não veja o que já acontece. A corrupção de Israel, relatada pelo profeta Miquéias, não é diferente da que vemos nos dias de hoje no mundo todo.

Os complicados estudos e comparações feitos pelos estudiosos dão a entender que os discursos pronunciados por Miquéias foram feitos após o ano de 722 a.C. Não obstante, é impossível datar com exatidão seus discursos.
As injustiças sociais eram notórias nos dias de Miquéias – nos dias de hoje - e por esta razão já ia surgindo no horizonte profético a ameaça do exílio babilônico do povo de Israel.

Entre os pecados por ele denunciados no seu tempo, podemos salientar os seguintes: a idolatria, a cobiça dos nobres que se iam apossando dos campos dos pobres; a desconsideração para com os direitos da herança; visitantes estrangeiros eram assaltados e roubados. Infelizmente, são os mesmos que vemos nos nossos dias. Porém, o pior de todos os pecados denunciados por Miquéias era a prática de sacrifícios humanos! (Miquéias 6.7 e II Reis16. 3 -40).  Já no seu tempo Miquéias nos diz que “pereceu da terra o piedoso, e não há um entre os homens que seja reto; o príncipe exige condenação, o juiz aceita suborno, o grande fala dos males da sua alma.” E nos aconselha: “Não confiais no amigo, nem confiais no companheiro. Guarda a porta de tua boca àquela que reclina sobre o teu peito. Porque o filho despreza o pai, a filha se levanta contra sua mãe, a nora contra a sogra, os inimigos do homem são os da sua própria casa.” - o mesmo acontece hoje!  Qualquer semelhança com os dias de hoje não é coincidência.

Eu, na minha falta de conhecimento, penso que só falta surgir “grandes sinais do céu.”. Então eu saberei que chegou a hora.


Ah, Homens com suas Religiões! Quantos males causam com sua Presunção!

Esta será a última vez?

A Bíblia diz que sim.


EP. Gheramer

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CONVERSANDO COM O TEMPO

CONVERSANDO COM O TEMPO
(Maristela Ormond)





Imagem retirada da web

            Gosto mesmo de falar do tempo. Será que ele me incomoda?
            O tempo é algo que sempre busco acompanhar e enfim ele sempre sai vencedor porque descubro que não sei administrá-lo. Sou sempre a última a chegar e ao mesmo tempo a última também a sair. Corro para alcançá-lo e quando abro os olhos passaram-se meses, anos...
            Aquela ruga não estava em minha testa na foto anterior, o tempo colocou-a e não percebi enquanto passava por mim e me enganava, porque certa de que poderia superá-lo, fui novamente deixada para trás.
            Como não deixar nada para trás? Como voltar no tempo e consertar algo que ele levou surrupiando (sem que me desse conta)  meu tempo com pequenas bobagens que eram imprescindíveis e que hoje já não significam nada? Ah tempo! Se me enganares novamente não terei tempo nem ao menos para me perdoar e perdoar tuas travessuras quando se ri de mim deixando-me cansada correndo atrás de ti...
            Tempo dê-me um tempo para pensar, para entendê-lo e ande de braços dados comigo ensinando-me como acompanhá-lo de maneira a render-me a teus encantos que são tantos... Faremos assim: Eu dou tempo ao tempo e você me dá um tempo para que possamos contemporizar nossas diferenças tornando-nos condescendentes e assim quem sabe um grande romance há de surgir entre nós, eu compreendendo-te e você me ensinando aceitá-lo e sentir suavemente tua passagem e a sabedoria que poderei adquirir junto de ti...



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